Deus tem um carinho especial por ateus

Certa feita morreu um fervoroso ateu.

Muito inteligente, desde criança questionava as baboseiras que escutava nas missas de domingo. Enquanto as crianças da mesma idade ficavam só esperando o fim daquele chato ritual, ele ficava compenetrado, enrugando a testa e questionando em silêncio a lógica de cada frase do padre.

Quando se tornou um jovem adulto se politizou (ah.... a politização...a maior fábrica de ateus). Quanto mais lia e discutia com os amigos mais se convencia que um Deus infinitamente bom e poderoso não permitiria tanto sofrimento no mundo.

Quando se tornou um adulto já tinha certeza de que Deus não existia. Aquilo tudo era apenas um elemento de dominação cultural e um jeito de dar conforto para os humanos que sofrem nesse mundo. Uma grande ilusão.

Para piorar, em uma infeliz tragédia, perdeu a esposa e um dos filhos em um acidente de carro. Era o que faltava para consolidar de vez o seu mais puro, mais destilado ateísmo. Deus não existe.

Mas o tempo se passou e, como é comum acontecer com os humanos, esse fervoroso ateu morreu.

A luta e a dor na cama de hospital foram subitamente suspensos. Os olhos antes cerrados com força de repente se abriram para enxergar uma criança vestida de branco, em uma sala toda branca. O nosso ateu se levantou, espantado. O seu corpo estava todo coberto de luz. Não sentia nenhuma dor.

Com um sorriso maroto no rosto, a criança disse ao ateu, olhando em seus olhos: “Aqui estou. Eu existo. Vamos lá ver a sua esposa e o seu filho? Eles estão te esperando. Aliás, tem um monte de pessoas querendo te reencontrar. Vamos lá?”

- Quem é você? O que está acontecendo? – perguntou o ateu, assustado.

- Sou Deus, é claro. Adoro essa hora. Vocês ateus sempre ficam com essa cara de bobo.

- Você não é Deus coisíssima nenhuma. Eu certamente estou delirando. O oxigênio no meu cérebro deve estar acabando.

Apontando para o chão, a criança disse: “O oxigênio já acabou faz tempo. Olha lá.”

O chão inteiro da sala onde estavam ficou transparente e agora, como numa estranha tela de cinema, o nosso ateu via o seu próprio corpo deitado no hospital. Os enfermeiros se preparavam para sair da sala. O seu segundo filho e a namorada estavam de pé do lado do corpo sem vida. Ambos chorando, no triste desespero e impotência dessas horas.

- Mentira! Isso é uma ilusão! Deus não existe! Como pode um Deus permitir todo esse mal e crueldade nesse mundo infeliz? Como pode existir violência contra animais indefesos, crianças morrendo de fome, toda sorte de barbaridades e crimes? Por quê? – perguntou desafiante o ateu

Sem desfazer o sorriso maroto, a criança respondeu: “Você se lembra de quando ensinou seu filho a andar na varanda da sua antiga casa? Lembra das vezes que ele caía de bunda no chão e chorava? O que você fazia? Deixava cair, claro. Por vezes até dava risada, que eu me lembro bem. Isso faz parte de aprender a andar. Para a criança que chorava, aquilo era um desastre. Mas você sabia que era apenas um passo, um ritual pelo qual era necessário passar.”

A criança fez uma pausa de alguns segundos e continuou: “Para uma alma, morrer algumas vezes de fome, em uma explosão ou uma enchente é menos do que cair de bunda ao aprender a andar. A alma opera em um nível de tempo, espaço e consciência muito maior. Veja só... conheço uma alma que morreu de fome 325 vezes seguidas. 325 vezes!! Até eu fiquei impressionado. Vou te apresentar, é um cara bacana: ele pode te explicar até melhor que eu...”

- Cala a boca!!! – Disse o irritado ateu levando as mãos à cabeça e fechando os olhos - Tudo isso é um delírio! A qualquer instante vai acabar o oxigênio e toda essa loucura vai passar. Vai tudo escurecer e eu deixarei de existir...

- Bom, vamos fazer assim: – interrompeu a criança - Eu vou dar uma saída. Vou deixar você aqui sozinho um tempo para processar melhor. Com o tempo você vai perceber que não é um delírio.

“Já já eu volto”, disse a criança e desapareceu no ar.

Confuso, o nosso protagonista ateu ficou ali, com o corpo coberto de luz. Através do chão o estranho cinema continuava passando: Via o seu corpo imóvel em uma cama de hospital, agora já coberto por um lençol. Em pouco tempo, ele percebeu que a cena mudava de lugar acompanhando o seu pensamento. Viu o seu apartamento, a sua cidade, a casa onde nasceu, seu trabalho... Acompanhou a namorada e o filho irem embora do hospital. Acompanhou-os durante a noite, cada um em sua casa. Em alguns dias, assistiu o seu próprio enterro.

Pelo chão da sala, ele via tudo se passar. O sol cair, as horas de escuridão, o sol nascer, o agito da cidade onde morava...Não sentia fome, nem sono. Não tinha noção de quanto tempo tinha se passado. A única noção de tempo que tinha vinha do desenrolar das cenas que assistia olhando para baixo.

Acompanhou o luto da namorada e do filho. Depois de algum tempo, viu a namorada arrumar outro parceiro. Acompanhou a vida do filho.... bastava ele pensar em alguém ou em algum lugar e a imagem do piso mudavam, na velocidade do seu pensamento. Viu diversos lugares do mundo. Alguns exatamente como ele imaginava. Outros muito diferentes. Viu o Polo Sul, Cascadura, Nova York, a grande muralha da China e o coração do deserto do Saara. E assim o tempo ia passando...

Com o tempo, ele viu sua namorada morrer, o filho morrer, todos os seus netos morrerem. Viu o nível do oceano subir por causa do aquecimento global. Viu o colapso do capitalismo. Viu a invenção do carro voador e depois do teletransporte. Viu guerras e mais guerras. Viu a Amazônia em chamas. Viu o grande terremoto que rachou a Califórnia no meio e submergiu São Francisco. Viu a grande guerra nuclear que eliminou a maior parte da população. Viu um imenso meteoro atingir onde era chamado de Europa, criando um oceano. Viu espécies serem extintas e novas espécies surgirem. Viu as placas tectônicas se moverem, mudando a forma dos continentes. Viu o sol se expandir e se transformar em uma estrela gigante vermelha e finalmente engolir a Terra inteira. Viu a escuridão salpicada de luzes do espaço.

De repente, o ateu escuta uma voz: “E aí meu amigo? E esse oxigênio que não acaba?”

Virou-se e ali estava a criança, com o mesmo sorriso e a mesma roupa branca. Espantado, o ateu começou a chorar com os olhos arregalados. “Por onde você andou?? Depois que se passaram alguns dias eu gritei, chamei e nada. Eu estou aqui sozinho faz tanto tempo. Quanto tempo passou? Parece que foram milhares e milhares de anos…”

- Bilhões na verdade. Uns 9 Bilhões. – disse a criança - Quer ver sua esposa e filhos agora? Agora a família inteira está junta. Só falta você. Ou quer esperar mais um pouco?

- Você me deixou aqui 9 bilhões de anos???!! - Gritou o ateu

A criança piscou o olho e, abrindo uma porta na parede da sala, disse: - Não fique bravo: Para sua alma foi só mais um tombinho de bunda ao se aprender a andar. Vamos lá? Ou quer mais um tempinho para pensar?