O Universo é abundante

 Alguém um dia comprou uma área no interior e teve a ideia de fazer a extração de água mineral. Conversou com vizinhos, com amigos. Pesquisou e leu sobre o assunto. Pediu conselhos. Passou algumas noites acordado pensando e fazendo contas. Finalmente, contratou uma empresa de perfuração de poços. Talvez até tenha mandado fazer um estudo por especialistas.

Acompanhou a instalação do poço. O sol rachando na cabeça dos homens em pé em volta de um furo no chão. A equipe de perfuração veio de longe. Ficaram em um hotel barato, longe de casa, saudade dos filhos, dos pais e das famílias. As noites eram mal dormidas por conta do calor e dos pernilongos.

As perfuratrizes são realmente máquinas incríveis. Cada detalhe pensado e planejado. Existem registros de perfuratrizes com mais de dois mil anos de idade, durante a dinastia Han. Desde lá, esses milagres da tecnologia humana são continuamente aperfeiçoados ao longo dos anos. As engrenagens vão rodando, cortando e moendo a rocha dura, em um barulhento balé.

O poço foi instalado e dentro do poço foi instalada uma bomba. A bomba é um equipamento relativamente pequeno, mas que consegue movimentar uma quantidade imensa de água a grandes distâncias. Realmente incrível. Essa bomba funciona com energia elétrica gerada lá em Itaipu. Faz pouco tempo, Itaipu era a maior barragem do mundo. Uma das maravilhas da engenharia moderna. A construção foi tão desafiadora que vários operários morreram na obra. Literalmente deram suas vidas, deixando vazios nas vidas de muitos outros. Essa energia então é trazida por centenas de quilômetros de linhas de transmissão, cuidadosamente construídas e operadas 24 horas por dia, 365 dias por ano.

A água que saiu do poço foi analisada. Amostras foram enviadas para laboratórios credenciados, com profissionais treinados. As concentrações de compostos na água são estimadas em cromatógrafos importados e caríssimos, que conseguem detectar mínimas concentrações de contaminantes e que funcionam utilizando os mais complexos conceitos da Física Moderna. Tudo no laboratório é regido por rigorosos controles de qualidade. Olhos atentos, mãos rápidas e luzes florescentes. Incansáveis.

O resultado das amostras foi ótimo: Água potável. As concentrações foram comparadas com padrões de qualidade definidos pelos mais preparados técnicos do mundo. Exaustivos ensaios de toxicidade foram construídos para testar cada parâmetro. Esses ensaios utilizaram várias cobaias inocentes, sacrificadas para proteger a saúde de toda a humanidade.

Com o resultado da análise de laboratório em mãos além de vários outros formulários e estudos, foi solicitada a outorga de uso da água para as autoridades. Esse pedido foi processado por diversos técnicos e funcionários públicos, trabalhando em imensos edifícios e pagos por toda a sociedade. A estrutura do órgão que aprovou a outorga foi estabelecida depois de muita discussão e muita análise, em diversas sucessões de tentativas, que foram gradativamente melhorando o jeito como as coisas funcionam.

A outorga foi aprovada. A água agora bombeada do solo agora é envasada sem contato manual, por máquinas cuidadosamente instaladas e calibradas por técnicos treinados. A limpeza da máquina é realizada diariamente por funcionários que deixam as suas famílias em casa e passam o dia na engarrafadora, garantindo que tudo esteja em ordem.

A água agora é colocada na garrafa, com um belo rótulo contendo todas as informações nutricionais, endereço da empresa, selos de controle de qualidade é um belo logotipo. Esse logotipo foi projetado por um designer gráfico treinado e que foi validado depois de longas discussão dos mínimos detalhes.

A água engarrafada e encaixotada é colocada em caminhões, feito de milhares de peças que trabalham em harmonia para que essa composição de dezenas de toneladas de aço, borracha, metal, plástico e vidro seja controlada por um profissional qualificado e solitário, encarregado da infindável missão de deixar sua carga no destino, segura e sem atrasos.

O caminhão segue por estradas que foram projetadas em milhares de horas de engenharia e construída por centenas de milhares de horas de toda sorte de operários e equipamentos especializados. São milhões e milhões de reais investidos na construção dessas vias que agora possibilitam que a água seja transportada para um depósito. Do depósito, um galpão onde empilhadeiras e homens circulam dia e noite como formigas, a água é armazenada e depois colocada em uma pick-up menor, onde é finalmente trazida até o aeroporto.

No aeroporto, a água é desencaixotada e colocada cuidadosamente em uma geladeira, em uma loja que funciona 7 dias por semana, nos mais inconvenientes horários. Funcionários uniformizados ficam de pé o dia todo, esperando o seu pedido.

 

Agora me digam:

Uma garrafinha de água mineral por 20 reais no aeroporto é uma pechincha ou não é?