Versão exagerada do Evangelho segundo Lucas 15:11-32

Foi EXATAMENTE assim:

Era uma vez o homem mais rico do mundo. Suas riquezas eram tantas que se fosse empilhado todo o ouro que tinha, formaria uma imensa montanha que chegaria até o Sol. Esse homem tinha dois filhos e morava em um gigantesco palácio, o maior já construído, com mil quartos e 2 mil serviçais.

O caçula um dia abordou o seu pai – o homem mais rico do mundo - no topo de uma escada de mármore com detalhes de ouro que descia para o salão real. Sem nenhum aviso, o filho deu um forte tapa na cara do seu pai, atirando-o ao chão e fazendo-o rolar abaixo da longa escada. Assustado e machucado, o pai se levantou com muita dificuldade, sem entender nada. O filho então gritou, com a voz cheia de raiva: "Pai, não quero saber de desculpas. Cale a sua boca e me entregue imediatamente toda a parte da riqueza que me pertence por direito. Eu EXIJO que você entregue o que é MEU!!! Não quero saber de palhaçadas senão eu te mato, seu velho maldito!!!!"

O pai, com os olhos cheios de lágrimas, disse com a voz trêmula: "Claro meu filho, eu vou dar a ordem e você receberá toda a sua herança imediatam-". Não deu nem tempo de terminar de falar e o filho ingrato deu-lhe mais um forte soco na boca, derrubando novamente o pai. Depois disso, o filho saiu pisando duro rumo a seus aposentos, fechando atrás de si pesadas portas de ouro.

Em poucos dias, depois de um imenso esforço de toda a criadagem, o filho mais novo saia do palácio do pai na frente de uma longa fileira de carruagens carregando toda sorte de riquezas como pedras preciosas, ouro, prata, animais, moedas e finas estátuas. A caravana era tão grande que se estendeu da porta do palácio até o longínquo horizonte. Toda a família e criadagem olhavam o espetáculo pelas janelas do palácio. O povo saiu às ruas para ver passar tão estranha procissão.

O filho mais novo então se entregou a uma vida de esbórnia e perdição, passando por peripécias jamais imaginadas, apostando montanhas de ouro em jogos de azar e fazendo todo tipo de irresponsabilidade com a sua vida, saúde e riqueza. Só para dar um exemplo, esse filho comprou o Sol de um golpista, organizou a maior orgia da história de toda humanidade (recorde que permanece até hoje), jogou uma carruagem cheia de esmeraldas no mar só para impressionar uma menina, trocou uma tonelada de diamantes por um sanduíche, deu as mais finas obras de arte como gorjeta e fez por diversas vezes grandes fogueiras com tapetes persas só por causa do barulhinho que faziam quando eram consumidos pelas chamas.

Um belo dia, quando ele se encontrava em um país muito distante, praticamente do outro lado do mundo, esse filho acordou e percebeu que havia feito o impossível: ele havia gastado tudo. Por um azar terrível, ele estava em um local que passava por uma terrível fome. As pessoas morriam aos milhares e as estradas estavam cheias de esqueletos, vivos e mortos. Os vivos buscando uma saída desesperada daquela situação. Os mortos sem buscar mais nada.

O filho desesperado tentou sair o mais rápido possível dali. Vagou durante dias e noites sem comer nada, sem parar. Viu naquela caminhada tenebrosa as cenas mais terríveis de desespero e necessidade. Perdeu a conta de quantas pessoas viu morrer. Depois de muitos dias de uma torturante caminhada, chegou a uma fazenda onde porcos eram criados. Agora maltrapilho e esquelético, bateu à porta e pediu um emprego em troca de comida.

O dono da terra, que estava precisando de ajuda, o contratou para cuidar dos porcos. Como pagamento, podia comer os restos de comida que os animais deixassem e beber a água das poças que se acumulavam no chiqueiro depois das raras chuvas. Trabalhou ali durante muitos dias, e ficou até mais magro do que quando chegou. Esperava ansioso os porcos terminarem de comer para ver se sobrava alguma coisa. Nem sempre sobrava. Tentava dormir encolhido ao relento, chorando e tremendo de febre e de dor. De vez em quando, o dono o chicoteava só por maldade, dando risadas com os gritos de dor do pobre empregado.

Uma noite, o filho exilado sentiu a vida lhe escapando e pensou: “Qualquer trabalhador do reino do meu pai, mesmo o mais humilde e necessitado, tem muito mais conforto do que eu. E aqui estou, entre a vida e a morte...Eu vou voltar...Eu voltarei para a casa de meu pai...”.

Saiu naquela mesma madrugada, não sem antes sorrateiramente encher a barriga de lavagem azeda que os porcos comeriam no dia seguinte. Caminhou muitos dias e muitas noites, mal sobrevivendo aos perigos da estrada. Depois de muito tempo, finalmente chegou às portas do familiar palácio onde cresceu.

Quando os empregados do palácio anunciaram a sua chegada, o seu pai desceu correndo as escadas de mármore e ouro, quase tropeçando nas próprias sandálias. O pai reconheceu imediatamente o seu filho mais novo, mesmo esquelético, fétido, barbudo, cabeludo, coberto em chagas, trapos, carrapatos, piolhos, brotoejas, furúnculos e sujeira, com a face completamente cheia de moscas. O pai espantou as moscas com a mão e segurou o magro rosto do seu filho. Sorrindo e chorando ao mesmo tempo, o pai abraçou seu filho longamente, agradecendo a Deus pelo seu retorno.

Com a voz fraca, o filho mais novo disse “Pai, eu pequei contra os céus e pequei contra ti. Eu não sou mais digno de ser chamado teu filho, mas por favor, deixe que eu trabalhe aqui no reino”. O pai o beijou sorrindo e disse aos seus servos: “Levem o meu filho para dentro imediatamente! Tragam comida, novas roupas e preparem um banho. O meu filho estava morto e reviveu! O meu filho estava perdido e foi encontrado!!!!”.

O cansado e doente filho então foi enviado para recuperação no mais luxuoso conforto. Comeu à vontade as mais finas comidas, tomou longos banhos quentes de banheira, dormiu relaxado na sauna, tomou suco de frutas exóticas, teve a atenção dos melhores médicos e das melhores massagistas do reino, todas as suas vontades eram atendidas prontamente. Ocupou novamente o seu antigo quarto com toda a criadagem e mordomia.

Depois de alguns meses, o filho finalmente arriscou sair do quarto, já gordo e bem vestido, com os dedos cheios de jóias e o pescoço com colares de ouro. O pai, vendo o filho andando pela casa, mandou anunciar a maior festa já realizada no reino. Todas as pessoas do mundo são convidadas. Dez mil bois e cem mil carneiros foram mortos. Rios e rios do mais fino vinho foram produzidos especialmente para a ocasião. Foi decretado um feriado oficial de dois meses. Todo o reino celebrava a volta do filho mais moço.

Chegou então o filho mais velho de uma longa viagem de trabalho. Não entendendo toda aquela comoção, perguntou a um servo o que estava acontecendo. “Seu irmão voltou! Todos estão celebrando! Temos dois meses de feriado! Viva seu irmão e o seu nobre e bondoso pai!”. Surpreso com a novidade, o irmão mais velho ficou possesso de ira e partiu com toda velocidade rumo ao palácio. Batia com toda força as esporas nas costelas do seu belo mas cansado cavalo.

Ao chegar pulou do cavalo e foi imediatamente conversar com o seu pai. A cara fechada do filho mais velho contrastou com o sorriso sereno do pai. “O senhor...O senhor é um canalha!!!! Um PATIFE!!!!” gritou o filho mais velho, jogando um imenso vaso de porcelana no chão, que se espatifou em um trilhão de pedaços. “Como você tem a audácia, o atrevimento, o desplante...o D-E-S-P-L-A-N-T-E de fazer uma festa para o palhaço, para o BURRO do meu irmão!!!”. A cara do filho mais velho estava desfigurada de puro ódio. Os funcionários com os olhos arregalados, se escondiam e saíam rapidamente da sala.

Eu te sirvo todos os dias da minha vida, trabalhando de sol a sol, cuidando de todos os assuntos do reino, sem descanso. Eu não tenho um segundo – UM SEGUNDO!!! – de descanso, sempre resolvendo problemas, cuidando do dinheiro, da organização do palácio, do bom andamento das coisas dentro e fora do reino. Eu acordo todos os dias e durmo todas as noites sempre ocupado, sempre trabalhando para o senhor! Para o SENHOR!!!” De tanta raiva, o filho mais velho levou as mãos à cabeça e arrancou dois imensos tufos de cabelo. “O senhor nunca me deu nem um cabrito, nunca disse obrigado...nem um obrigado eu mereço!!”.

O sangue agora descia das duas imensas feridas circulares, uma de cada lado da cabeça onde estava o cabelo arrancado. Os olhos do filho mais velho estavam completamente vermelhos. Seu corpo todo tremia. Seu cabelo estava todo desgrenhado. A testa e o pescoço cobertos de veias saltadas. O canto da sua boca espumava de raiva. “Agora chega o BONITÃO depois de umas férias de vários anos e o senhor declara um feriado de dois meses????? Faz uma imensa festa???? O senhor enlouqueceu??????”.

O Pai fechou o sorriso, segurou o filho bem firme pelos ombros e disse: “Olha bem nos meus olhos, seu pirralho, que eu vou te falar uma coisa importante”. Olhando nos olhos do filho, o pai começou a falar tão grosso e tão alto que até o chão e as paredes tremiam: “Cale a sua boca IMUNDA, seu MOLEQUE!!! Escute o seu pai que lhe deu TUDO, inclusive a sua própria VIDA!!! Deixe de ser invejoso e egoísta. Você é muito responsável e trabalhador, mas aparentemente não aprendeu o que realmente importa nessa vida. O grande BURRO dessa parábola é você, que vem com essa atitude INEXPLICÁVEL depois do retorno do seu irmão”. O Pai começou a sacudir o filho com força pelos ombros gritando “É SEU IRMÃO, ENTENDEU???? SEU PRÓPRIO IRMÃO!!!! OU VOCÊ É TÃO BURRO QUE AINDA NÃO PERCEBEU O SEGREDO DE TUDO????

O filho agora olhava paralisado para o seu pai, que continuou olhando fixamente no fundo dos olhos de seu filho: “Escute só: Tudo o que é meu, é seu. Sempre foi, sempre será. Isso não vai mudar nunca, desde que você continue comigo. Agora....é claro que devemos nos alegrar: Seu irmão estava MORTO e REVIVEU.... Ele estava PERDIDO e foi ENCONTRADO!!! Você queria O QUE??????? Que eu ficasse com raivinha como você?????? Olha só como você é BURRO!!!!”.

O filho mais velho então, passou a chorar, não mais de raiva, mas de vergonha da própria ignorância. O pai soltou seus ombros e, sem forças, despencou no chão. Se afastando, o pai deu ordem para a criadagem não interferir. O filho mais velho seguiu chorando prostrado no chão durante uma semana sem parar. Depois desse período, finalmente se arrastou para seu quarto, subiu com dificuldade na cama e dormiu um dia todo.

Acordou tarde no dia seguinte, tomou um banho, se arrumou e se sentiu renovado. Finalmente tinha entendido o SEGREDO DE TUDO. Saiu do quarto sorrindo e se dirigiu para a imensa festa. Chegando lá, chegou na mesa por trás do seu irmão caçula e de seu Pai, que sentavam lado a lado. Surpreendeu os dois com um forte abraço, enquanto tomavam vinho em imensas canecas. Os três homens abraçados agora davam estrondosas risadas. Os outros convidados da mesa aplaudiam ou erguiam as canecas, brindando a vida em abundância.

A mãe, do outro lado da mesa, olhou a cena e finalmente sorriu :)