O Forró de Shiva - Capítulo 1
“Acorda agora. Conta até três e levanta.”
O homem despertou assustado no seu pequeno apartamento bagunçado. A voz era nítida. Como se alguém estivesse dentro de sua cabeça. Sem pensar, obedeceu. Contou até três e se colocou de pé.
“Ótimo. Agora veste essa camiseta e essa
bermuda que estão no chão. Depois coloque seu tênis e saia de casa. São 5 da
manhã. Você não precisa se preocupar com horário. Vai dar tempo de chegar no
trabalho. Também não se preocupe com assaltos: Não tem ninguém na rua. Eu já
chequei.”
De novo escutou a voz. Não era alta, mas
era claríssima. Nítida. Olhou para a janela. Realmente estava escuro. Devia ser
bem cedo. Sem saber realmente o porquê, obedeceu mais uma vez. Quando chegou na
calçada, escutou a voz novamente:
“Agora ande em volta do quarteirão. Respire
fundo. Relaxe o corpo. Enquanto você anda eu vou te dar umas instruções”
O homem começou a andar e enquanto isso, a
voz continuou:
“Eu sei que você não está bem. Está sem
saúde, sem dinheiro, não gosta do seu emprego e está quase sendo demitido. Está
acima do peso. Anda bebendo e fumando muito. Está distante da sua família, não
tem amigos e namorada. Em resumo: Você é um fracassado e um infeliz.”
O homem seguia andando em volta do
quarteirão, atônito. Escutava a voz com atenção, andando na calçada vazia
naquela madrugada escura.
“Mas a vida não precisa ser assim. Se você
fizer exatamente o que eu te disser, eu vou te tirar dessa. Eu vou ajudar você
a dar uma reviravolta na sua vida. Mas tem duas condições. A primeira é que você
precisa fazer tudo o que eu falo. Se você não obedecer, eu desapareço para
sempre e vou ajudar outra pessoa. A segunda condição é que se você me fizer
alguma pergunta, eu também irei desaparecer para sempre.”
“Vamos começar: Você vai dar mais cinco voltas
no quarteirão. Chegando em casa, eu quero que você jogue todos os cigarros e
bebidas em um saco de lixo preto. Você vai catar tudo o que está no chão da sua
casa. O que for lixo, vai para o saco de lixo, junto com os cigarros e as
bebidas. O que não for lixo ou que você tiver dúvida, coloca em cima da sua
cama. No final do dia, você vai organizar o que estiver em cima da cama. Hoje
você vai sair do trabalho e vir direto para casa. Nada de ir beber e fumar com
os seus amigos alcoólatras, todos no caminho do fracasso e da infelicidade”.
A voz silenciou. O homem deu as cinco
voltas no quarteirão com passos rápidos, pensando naquelas palavras. Chegou em
casa e fez exatamente como a voz havia orientado. Quando terminou de colocar
todas as coisas em cima da cama, viu depois de muitos meses o chão do seu
apartamento, que sempre estava entulhado de coisas variadas, cinzeiros, lixo e
roupas sujas.
Quando amarrou o último saco de lixo,
escutou: “Agora tome quatro copos de água e depois um banho. São 7:12. Dá tempo
de fazer a barba sem pressa. Vista aquela calça azul e a camisa social branca
que você só usa para ir em festas. Não tome café da manhã. Você só vai comer
hoje na hora do almoço. Vá ao trabalho de ônibus, como você faz usualmente.”
O homem seguiu as orientações e quando chegou ao trabalho escutou “Vá falar com o seu chefe. Dê bom dia e pergunte se tem alguma coisa em que você pode ajudar hoje”.
O homem então fez o que nunca havia feito antes: Foi para a sala do chefe sem ser chamado. Passou direto pelos colegas que tomavam café e conversavam sobre as notícias de ontem.
Ao chegar na sala do chefe, deu três
batidas rápidas e leves na porta e abriu. O homem encontrou seu chefe sentado à
mesa olhando fixamente para uma folha de papel sobre a mesa. As mãos do chefe
estavam espalmadas uma de cada lado da folha. Sem mexer o restante do corpo, o
chefe ergueu o rosto. O homem percebeu que, apesar da expressão aparentemente tranquila, os olhos do chefe estavam vermelhos.
- Bom dia! Posso ajudar em alguma coisa
hoje? – perguntou o homem, com um sorriso.
O chefe olhou imóvel para o homem e demorou
alguns segundos para responder.
- Olha…sabe que talvez eu tenha uma tarefa especial para você hoje... Entra. Puxa uma cadeira. Vamos conversar.