Mais vale um gosto do que uma carroça de abóbora
O homem acordou cedo.
Se vestiu, foi para cozinha e passou um café.
Lá fora, a noite chegava ao fim. Um novo dia estava chegando.
Pegou uma xícara e saiu para a varanda.
Deu alguns passos para o quintal, subiu em uma pequena elevação no terreno e olhou para Leste.
Daquele ponto era possível ver a barra do dia no horizonte distante.
Ficou ali um tempo, respirando fundo.
Viu a alvorada. Viu o sol nascer.
Terminou o café e suspirou. Abriu um sorriso sereno.
O homem estava finalmente livre.
Totalmente, completamente livre.
Teve uma vida cheia de trabalho, de estudo, de lutas, de correria.
Família, filhos, chefes, clientes, preocupações, crises econômicas, arrochos, ditaduras.
Sobreviveu e proveu, dentro da lei. Um cidadão exemplar.
Seus filhos agora estão criados, felizes. Cada um correndo atrás da própria vida.
Cresceram com condições muito melhores do que as dele.
Deixou um mundo melhor para os seus e para os outros ao seu redor.
O homem agora estava finalmente aposentado. Esse é o seu primeiro dia de liberdade plena, completa.
Finalmente estava sem compromissos ou responsabilidades com outros.
Sólido patrimônio, sem dívidas. Tranquilo. Financeiramente independente. Livre.
Ainda forte. Ainda afiado. Ainda vivo.
Deu mais um gole de café e disse em voz alta, olhando para o sol que acabou de nascer:
"Finalmente vou poder realizar o meu verdadeiro sonho....Vou ser guarda noturno de cemitério!"