Primeira aula do primeiro dia de um curso superior de Humanas segundo um preconceituoso (eu não!!)
Como um preconceituoso (eu não!!!) imaginaria a primeira aula do primeiro dia de algum curso superior de Humanas em alguma universidade pública brasileira em </ano atual/>:
(Sobe o pano).
(O cenário é uma sala de aula. De um lado várias cadeiras universitárias. De outro, uma mesa e cadeira do professor, na frente de um quadro negro. Alunos conversam, esperando o professor chegar, alguns de pé, outros sentados.)
(Professor entra na sala. Os alunos se
sentam e se aquietam. O professor coloca sua pasta sobre a mesa e fica em pé na frente
do quadro negro e voltado para os alunos.)
- Bom dia pessoal! Meu nome é professor Jales
Bellardi e eu vou dar o curso de Antropologia Cultural. Vamos direto ao assunto
e vamos começar falando de Cultura Brasileira, certo?...A cultura brasileira é
o que? O que é a cultura brasileira? Alguém sabe?
(Silêncio. Os alunos escutam atentos, mas ninguém
responde.)
- A cultura brasileira é o arroz com feijão.
É a rodoviária. É a estrada de terra. É um cocar. É o caminhão do ovo.... O que
é essa cultura? De onde vem essa cultura, hein?... Quando começou?... Na dita independência?
Na chegada de Cabral? Na chegada do homo sapiens sapiens nesse território, saindo lá da África?
Veja bem... em uma análise marxista, a cultura é um campo de luta simbólica. Luta
vem do Latim, lucta que significa “esforço, competição” ...é um termo desportivo.
Simbólica vem do grego simbolon, que é a junção de syn, ou “junto”
e ballein, que significa “arremessar, lançar” ... ou seja, simbólica se
refere ao que se “lança junto”. Nessa luta simbólica cultural, as contradições e
antagonismos da sociedade capitalista se lançam junto numa grande competição no
plano das ideias que se materializa nas práticas humanas... Aliás, não se pode
falar de cultura sem o ser humano. Logo, não se pode falar de cultura brasileira
sem o ser humano brasileiro. E não se pode falar do ser humano brasileiro sem
falar de água. De toda essa água doce que está aí. Que só o brasileiro tem...cerca de 70% do peso do seu corpo... A
água de Iemanjá, do Rio São Francisco, de Ipanema, do Boto.... Da água que é a
anti-água, que são as crises hídricas e racionamentos nas periferias...desertos
impossíveis criados por um mar de incompetência pública...Tem também a “água que
passarinho não bebe”... que nos remete ao canavial, ao chicote do feitor e à viola
na casa grande. A mesma viola que acaba parando na mão do escravo que, nas suas
expressões culturais, vão criar o samba como espaços de resistência e
contestação. É Racionais MC. É Tião Carreiro e Pardinho. É a flecha do
indígena, que na sua antropofagia de verdade, não aquela simbólica da semana modernista
de 22, acabou sendo comido pelo europeu desterrado.... Cultura brasileira é a
problematização das relações de poder no Brasil. Narrativas do poder no Brasil
é como o Cid Moreira narrando Palmeiras e Asa de Arapiraca na Copa do Brasil.
Era para ser uma goleada do Palmeiras, mas Arapiraca resiste... Mas até quando?
Veja bem... Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro escrevem
sobre o que? Roberto DaMatta diz que a cultura é um espelho do Brasil. Seria aqueles
espelhos pequenos com bordinhas de plástico alaranjado que são pendurados em um
prego no banheiro? Está sujo de respingos de pasta de dente? Quem se vê nesse espelho?
E se formos cegos? Como fazemos para nos vermos nesse espelho? As manifestações artísticas, literárias e
musicais, permeadas por narrativas de opressão, exclusão e desigualdade,
refletem as lutas de classes e as estruturas de dominação presentes na
realidade brasileira. Cultura é o palhaço dando um tapa na cara do dono do
circo.... Mas, por outro lado, o mesmo palhaço no fim do dia vai para casa e
assiste novela da Globo e fica com vontade de comprar uma moto e viajar. Mas
para onde? O Brasil é grande demais, mesmo para quem tem moto. E nessa área imensa
está o nosso rico solo fértil. Vermelho. Terra roxa. Humus. É a própria merda
que, embora repugnante, dá fertilidade ao solo. Faz a horta crescer
bonita. Cultura etimologicamente vem de agricultura, de plantar a terra... essa
terra que tem dono... terra que, dialeticamente, está cheia de sem terras. No
terreno fértil da cultura brasileira, a compreensão das dinâmicas sociopolíticas
e das contradições inerentes ao sistema capitalista brotam e crescem como mato alto
em lote vago: Horrível, mas um bom esconderijo para o amor proibido entre o
filho da empregada e a filha do patrão, que pode ou não pode ser trans.... Sim,
você levantou a mão? Alguma pergunta?
- Isso cai na prova?
(Desce o pano)